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Travessia
Praia da Solidão – Praia dos Naufragados: Uma
caminhada iluminada 26
de Junho de 2008
Percorremos por uma das belas trilhas da Ilha de Santa Catarina. Iniciando na localidade de Rio das Pacas, na Praia da Solidão, nos preparávamos para uma caminhada de 8.200 metros, passando por comunidades açorianas, trechos de costão e adentrando em mata pouco transitada, com destino a Praia dos Naufragados.
Na primeira parte da atividade, o trecho é bastante pitoresco. Apesar de íngreme, a charmosa estradinha de cimento batido - caminho que serve a uma comunidade que sobrevive basicamente de pesca e pequenos cultivos desde o século 20 -, é ideal para caminhadas com a família. O percurso pode ser feito tranquilamente, apreciando o visual do alto mar, das praias, da vegetação e casas.
Ao chegarmos na Comunidade do Saquinho, observamos que muitos dos nativos já não residiam lá. Aos poucos, estavam desaparecendo, em busca de melhores condições de vida, em função dos atrativos e confortos da cidade.
Praticamente deserta, nos deparamos com uma cena que nos chamou a atenção. Finalmente encontramos alguém que vivia na comunidade. Um aparentemente simpático senhor colocava lenha no fogão da casa. Passávamos pela entrada com olhares curiosos. Uma plaquinha informava que havia trabalhos de artesanatos. Intuitivamente paramos como se quiséssemos ser convidados. E sem que houvesse qualquer manifestação verbal de um pedido para conhecê-lo, logo surgiu o convite por parte dele.
Observamos
seus artesanatos feitos de madeira, sua casa simples onde não havia
energia elétrica. Encontrávamos ali um verdadeiro tesouro vivo plenamente
integrado à Natureza e à sua própria natureza. Começamos
a conversar com ele sobre o modo de vida e como se sustentava. Sereno,
amoroso, gentil e bem humorado, este é o Seu Adailson. Ele nos dissera que
foi um rico industrial, muito bem sucedido, e que chegou a morar no
corre-corre cotidiano de São Paulo. Seu Adailson nos conta que
gradativamente foi se preparando para a transição do homem material para o
homem espiritual. Certo dia, narra ele que teve o grande insight, se desfez de todos os
bens materiais, e foi viver em plena harmonia consigo mesmo e a natureza.
E advindo deste bate-papo descontraído, saboreamos subitamente uma auspiciosa oportunidade que Seu Adailson nos ofereceu ao iluminar nossa caminhada com seu conhecimento transcendente. A grande lição que aprendemos em conversar com ele foi o ensinamento que difere sutilmente o amor do apego. Ele conta que deu todo suporte aos filhos, estudo, apoio, atenção, atos que brotam naturalmente da luz do amor, oferecendo os melhores colégios, cursos no exterior e etc. Ele narra que os filhos dele são casados, foram morar nos Estados Unidos, constituir suas famílias e dar prosseguimento em suas vidas. Quando Seu Adailson percebeu que seus filhos não precisavam mais do suporte dele, estando prontos para a vida, foi assim então que passou gradualmente a se desprender de tudo; determinou-se a viver como nômade em regiões que pudessem lhe dar uma vida simples e abençoada pela Natureza. Hoje ele não sabe onde exatamente os filhos dele estão – e nem eles -, e também não sente remorso por isso, pois sabe que deu o amor genuíno a eles, compreendendo assim que os filhos, exatamente como o pai, estão livres para serem felizes. Querer os filhos para si seria profundo egoísmo da parte dele, o que poderia ser facilmente confundido com apego. Amor e apego tomam estradas diferentes no caminho que leva à felicidade e no outro que se dirige ao sofrimento.
Esta conversa nos fez lembrar certa vez que um amigo nos citou por e-mail as seguintes passagens: "A razão pela qual você sente saudade das pessoas, a razão pela qual, por exemplo, seu neto sentiria saudade de você é porque de algum modo quando ele está com você, é mais fácil para ele permanecer em alinhamento (sentir-se estável, confortável). Podemos concluir que seu neto está sentindo, na verdade, saudade do modo como ele se sente quando está com você. E assim, amor é o que gostaríamos que ensinasse às pessoas a como se sentir bem independentemente de estarem com você ou não. O que é o oposto daquilo que a maioria instintivamente (inconscientemente) deseja. Podemos pensar que é uma belezinha de que eles sintam saudade. A belezinha seria dependência, prisão, apego, por mais afeto que possa estar envolvido. Podemos pensar que é uma gracinha que eles queiram estar com você. Mas não é uma graça, é dependência. E o que deveríamos desejar é, de algum modo, treiná-los para procurar seu próprio alinhamento, e não a depender do nosso. Somos na verdade interdependentes e não dependentes. Há uma sutil, profunda e importante diferença que a espiritualidade explica. Este é o problema de quando estamos desatentos, não estamos plenamente atentos ao agora. Somos condicionados, treinados a dar mais importância a como os outros estão sentindo-se a seu respeito do que a como a gente se sente a respeito de nós mesmos."
Seguindo viagem, caminhamos até Ponta do Pasto, o Pastinho, antes de entrar na mata. Trata-se de trilha relativamente longa, muito utilizada para a travessia de animais. No local, predomina a grama baixa, com vegetação nativa rasteira, tendo ao lado uma "praia" coberta por bonitas pedras arredondadas.
Adentramos em área de mata fechada, que muitas vezes não permitia a entrada de luz solar, oscilando entre Floresta Atlântica original e em estágio de regeneração, encontramos pequenos córregos grandes, bananeiras, uma casa abandonada e nos deslumbramos com magnífico visual para as Ilha das Três Irmãs, Moleques do Sul e costões.
Antes de pisarmos na areia da Praia dos Naufragados, ficamos curiosos em saber o que uma pedra provavelmente proveniente de oficinas líticas estaria fazendo no quintal da casa de um morador da região.
Finalmente estávamos no extremo sul da ilha, área conhecida pelo naufrágio de duas embarcações de médio porte usadas pelos portugueses, bem em frente à praia, em 1753. Naufragados está localizado a 43 km do Centro de Florianópolis, a 27.8347222º de latitude sul e 48.5633333º de longitude oeste.
Percorremos calmamente os 1.450 metros de extensão da praia - deixando sua beleza e charme de uma faixa de areia ligeiramente macia e clara, entre 15 e 100 metros de largura, tomar conta de nossos momentos mais aprazíveis - até o lado direito.
Continuamos então até o farol, no costão direito da praia, inaugurado em 1861. Uma curiosidade é que a chegada da famosa Ponte Hercílio Luz só veio acontecer 65 anos mais tarde. A partir desta época, famílias migraram para a região, um engenho foi construído e abriram-se os primeiros roçados na mata. Empreendimentos coloniais que prosperaram impulsionaram a importação de escravos. Deste período, restaram algumas ruínas feitas de óleo de baleia, pedras e conchas, que ainda podem ser observadas à margem da trilha.
Outra curiosidade, o Farol dos Naufragados foi construído como uma torre branca e circular de alvenaria, coberta de pastilhas, num maciço de 30 metros, elevando o conjunto a 42,6 metros acima do nível do mar - altura de um prédio de aproximadamente 14 andares. O alcance geográfico é de cerca de 33,3 km (18 milhas) e o luminoso, de 10 milhas, com funcionamento por baterias desde 1989.
Que imagens fantásticas: um marzão imponente abraçando o Forte de Araçatuba (27° 50' 25" de latitude sul e a 48° 34' 23" de longitude oeste), as Ilhas do Papagaio Grande e Pequena, Enseada de Brito, Praia do Sonho, Cambirela e muito mais... Visitamos ainda os canhões do Forte Marechal Moura de Naufragados, construído entre 1909 e 1913. Entre as doze fortificações que formaram o antigo sistema defensivo da Ilha, é a mais recente, única no século 18. A função destes armamentos foi a de complementar as defesas da Fortaleza de Araçatuba - que pode ser vista do costão e do farol de Naufragados - guarnecendo a entrada da Barra, a partir de uma posição superior. Hoje restam apenas alguns trechos de muralhas e o armamento original de três canhões de 120 mm, fabricados por volta de 1893, em razoável estado de conservação.
Retornamos até a Caieira da Barra do Sul, numa bela caminhada ora contemplando as formas, as cores vivas e a luz que penetrava nas folhas, ora em silêncio ouvindo o som dos pássaros e ora curtindo um bate-papo descompromissado e descontraído.
Ao final da atividade, admiramos um belíssimo por do Sol, com a iluminados por um dia repleto de ensinamentos e bênçãos.
“Ser
rico é não precisar de nada.” “A
luz que você está procurando é interior. A
luz é vida, é amor, é você. Ache-a,
nutra-a, partilhe-a. Procurá-la
é participar do infinito.” “A Linguagem dos Sentimentos”, de David Viscott.
“NATURAL
E SIMPLES...
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